Primeiro Caderno | Dia-a-dia Edição de domingo, 1 de agosto de 2010
Os passos do cangaço em Campina
Há 66 anos, morria na cidade o temido Antônio Silvino, um dos precursores do banditismo no NE
Severino Lopes // severinolopes.pb@dabr.com.br
Aparentemente, a praça Félix Araújo, situada no bairro do Monte Santo, em Campina Grande, é apenas mais uma de tantas praças que existem na cidade. De frente para o presídio regional do Monte Santo e a alguns metros do cemitério Nossa Senhora do Carmo, o logradouro é cercado por árvores, como a grande maioria.
Pesquisador João Dantas mostra local onde o corpo do cangaceiro teria sido enterrado, no cemitério do Monte Santo Foto:Katharine Nóbrega/Especial DB/D./D.A Press
O que poucos sabem é que por trás das árvores, bancos e pedras da praça se esconde um valioso tesouro perdido no tempo e na história. Bem na esquina entre as ruas Presidente João Pessoa e Arrojado Lisboa, existia uma casinha simples, daquelas do interior, que por sete anos abrigou Manoel Batista de Morais, o conhecido "Antônio Silvino", um dos precursores do cangaço, famoso antes do surgimento de Lampião, nos estados da Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte.
A casa, demolida anos depois, era situada onde hoje funciona uma loja de automóveis e pertencia a Teodulina Aires Cavalcanti. O hóspede de Teodulina parecia ser pacífico. Andava com a Bíblia debaixo do braço subindo e descendo a rua e não gostava de falar de seu passado. "Ele era muito reservado. Dizia que tinha sepultado sua identidade", contou o pesquisador João Dantas.
Nos últimos anos de vida, Antônio Silvino dedicava parte do tempo entre a casa da Teodulina e uma igreja evangélica. Ele frequentava a Igreja Congregacional, da Rua 13 de Maio, centro. A bisneta dele, Nádia Andrade da Silva, que hoje tem 53 anos e mora no município de Fagundes, ouvia a sua mãe Maria Marciano de Andrade dizer que ele era um velho bondoso. "Minha mãe contava muita história dele. Ela não falava que ele era uma pessoa tão temida. Não parecia ser um homem que amedrontava" revelou Nádia, se orgulhando de ter o sangue de Silvino correndo em suas veias.
O sobrinho dela e tataraneto do cangaceiro, o agricultor Paulo Roberto, hoje com 48 anos, também ouvia muitas histórias do tataravô, mas nunca acreditou que ele tivesse sido um bandido.
Pernambucano de Afogados da Ingazeira, pequena cidade situada às margens do rio Pajeú das Flores, no Sertão, ele escolheu a casa modesta de taipa para se refugiar nos últimos dias de sua vida, dias depois de ser solto, por ordem do então presidente Getúlio Vargas, após passar 22 anos na cadeia.
Ele comandava um bando de cangaceiros, quando herdou o nome de Antônio Silvino. Assim, as mãos que carregavam a Bíblia a levava de um lado para o outro, no passado haviam segurado um rifle, apertado o gatilho e matado muita gente, sendo muito temido na região.
Batizado de "rifle de ouro" e até se auto intitulado de "governador do Sertão", o bandoleiro terminou seus dias em Campina Grande, especialmente na casa da sua prima Teodulina, onde morreu aos 69 anos no dia 30 de julho de 1944.
São 66 anos da morte do cangaceiro, que durante 16 anos organizou saques, assassinou políticos, ignorou a polícia e só respeitava as mulheres com 'modus operandi' de atuar diferente do temido Lampeão. Ele foi enterrado no cemitério do Monte Santo, quase ao lado da praça onde passou boa parte de seus últimos dias.
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