Brasil Edição de segunda-feira, 19 de julho de 2010
Infância destruída por tragédia familiar
O destino do filho de Eliza, supostamente com Bruno, repete histórias de órfãos que tiveram as mães mortas pelos próprios pais
Renata Mariz
Lembrança nítida da tragédia, 20 anos depois, fez Nathália Just (esq.) colaborar para a condenação de José Ramos Foto:Alcione Ferreira/DP/D.A Press
Mais um episódio de atletas milionários envaidecidos pela fama e pelo dinheiro numa vida desregrada. Evidência da falta que uma família estruturada pode fazer. Prova cabal da violência covarde de homens contra mulheres em pleno século 21. Inúmeras são as reflexões que o caso do goleiro do Flamengo, Bruno, pode suscitar. Mas quando tudo acabar, e o assassinato de Eliza Samudio for totalmente elucidado, restará uma história triste e cruel para o verdadeiro pivô do crime que chamou a atenção do Brasil nas últimas semanas: o bebê que a jovem teimava ser filho de Bruno, enquanto o goleiro se negava a fazer o teste de paternidade. Batizado de Bruninho, o menino de cinco meses de vida poderá ser mais um entre tantos brasileiros órfãos de mãe graças às mãos assassinas do pai.
Ninguém sabe quantos eles são, mas dados da Secretaria de Políticas para as Mulheres, com base nos 51.354 relatos de violência recebidos pela central telefônica, de janeiro a maio de 2010, mostram que 30,3% das agredidas têm um único filho e 28,2%, dois. Em números absolutos, isso representa pelo menos 44.522 pessoas, entre crianças e adultos, com mães apanhando de pais, padrastos, namorados ou companheiros. Quase 70% dos filhos presenciam a violência e 15,6% são espancados com as mulheres que lhes deram à luz. Num emaranhado de sentimentos, que mistura incredulidade, dor, raiva, piedade e sede de justiça, os herdeiros dessas tragédias familiares abrem o coração para contar como encaram suas próprias histórias.
"A gente namora, se casa e ele mata a gente". Eis a definição utilizada por muito tempo por Nathália Just Teixeira, quando criança, durante as sessões de terapia, para definir o ciclo natural dos relacionamentos entre homens e mulheres. A moça de 25 anos presenciou, quando tinha quase 5, o pai, José Ramos Lopes Neto, matar a mãe, Maristela Just, em 1989, no Recife (PE). O homem também atirou contra ela, o irmão, Zaldo, e um tio deles. Todos sobreviveram à chacina, menos Maristela, baleada com três tiros na cabeça. De tão nítidas, as lembranças de Nathália ajudaram na condenação recente do pai, 21 anos depois do assassinato. "Infelizmente minha memória em relação ao dia não se apagou. Por outro lado, penso que foi bom, pelo menos pude colaborar como testemunha", diz a jovem.
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