Opresidente Luiz Inácio Lula da Silva tem tratado com ironia a atuação dos órgãos de controle externo. A princípio num tom aceitável, com o aumento da popularidade envereda por caminho que beira ao deboche. Começou por citar pererecas e machadinhas indígenas para criticar decisões do Tribunal de Contas da União que provocaram a paralisação de importantes obras. Agora, dispara em todas as direções.
Na Conferência de Ciência e Tecnologia, em Brasília, o presidente se antecipou a possíveis críticas, ou mesmo multas, por ter recebido uma luneta de presente do ministro Sérgio Rezende. Lembrou que estamos em ano eleitoral e comentou:"Pronto! Já está o Lula processado". Disse que o Ministério Público e o TCU investigariam o presente. Quem sabe até uma CPI seria formada pela oposição."E aí tudo fica paralisado neste país", completou, manifestando mais uma vez o seu temor pelas paralisações.
Há que se reconhecer o aperfeiçoamento do controle interno no governo Lula. O funcionamento da Controladoria Geral da União temsido exemplar, seja nas mãos de Waldir Pires ou de seu sucessor, Jorge Hage. O Portal da Transparência, que registra online os gastos do Executivo, permite ao cidadão vasculhar as despesas do governo, checando quem recebe e quem fornece para a administração federal. A arma tem sido utilizada com eficiência por jornalistas e pela oposição, mas é mantida intacta, como recomenda o regime democrático. Foi esse instrumento que permitiu investigar a fundo o uso dos cartões corporativos, por exemplo.
Mas o chefe da nação demonstra visível irritação quando precisa enfrentar o controle externo, que não se resume ao TCU. Num evento em São Paulo, ele chegou a perguntar quem pagaria a sua multa quando o público começou a gritar o nome da candidata petista.
Tudo indica que Lula sustenta a sua estratégia num fato evidente: a imensa popularidade de que desfruta, capaz de alavancar a candidatura à Presidência da República de alguém que jamais disputou cargo político. E já ficou evidente que o povo brasileiro gosta das bravatas e metáforas do líder. Basta observar os risos e aplausos quando elas acontecem em ambientes públicos. A manifestação de apoio é espontânea. As brincadeiras fora de hora parecem aproximar ainda mais o presidente dos eleitores, principalmente aqueles das camadas C e D.
Sempre é bom lembrar que a extrema popularidade de chefes de Estado já foi usada em favor de causas espúrias, como o nazismo e o fascismo. O presidente brasileiro passa longe disso. Prova recente foi a recusa à aventura do terceiro mandado. Mas o constante ataque àqueles que fiscalizam o governo, o tom de deboche, a postura de quem está acima da lei são sinais preocupantes.
O chimarrão nosso de cada dia
Selvino Heck // Assessor da Presidência da República
Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, Roraima, almoço oferecido pelos índios makuxis ao presidente Lula, alguém me pergunta: "Tu é gaúcho?" - "Sou." - "Logo reconheci pelo sotaque. Tu é de onde?" - "Sou de Venâncio, capital da erva-mate e do chimarrão, terra da FENACHIM e onde o Mano Menezes se criou no futebol." - " Pois eu sou de São Luiz Gonzaga. Saí de lá faz mais de quinze anos e sou professor da Universidade Federal de Boa Vista. Aparece na minha barraca cedito prum chimarrão." - "Tu tem chimarrão? É tudo que eu queria." - "Mas é claro. Tô longe mas tomo sempre. Às vezes é difícil achar erva boa, mas sempre dou um jeito."
Antes de 1600, o uso da erva pelos indígenas restringia-se aos feiticeiros e pajés como forma ritualística e sagrada. Era usada em rituais de cura e em volta das fogueiras para ativar contato com ancestrais. Depois, nas missões, os padres jesuítas, junto com os índios, passaram a cultivar e beneficiar a erva, que por muito tempo fez parte da vida dos índios, até se popularizar para espanhóis e europeus que vieram para o Brasil.
A erva-mate (Ilex Paraguariensis St. Hil.) tem este nome devido ao botânico francês e viajante Auguste Saint Hilaire, que coletou o primeiro exemplar com intenção de catalogar a planta em 1825. Tem muitas propriedades benéficas para as funções orgânicas. Segundo o médico Oly Schwingel, a erva-mate é considerada um "alimento quase completo, pois contém a maioria dos nutrientes necessários para sustentar a vida. A erva mate também possui substâncias antioxidantes, que evitam o envelhecimento e controlam o mau colesterol, podendo ser usadas no emprego farmacêutico como expectorante, diurético e harmonizador orgânico, estimulando a resposta imunológica".
Mas não é essa a razão principal pelo qual eu, milhões de gaúchos, catarinenses, paranaenses, argentinos, uruguaios e paraguaios tomam chimarrão. Flávio Seibt, presidente do Núcleo de Cultura de Venâncio Aires (NUCVA) palestrou em Seul, em 2004 sobre "Chimarrão: o chá da amizade e da hospitalidade", o que levou a entidade a apresentar o projeto "O Patrimônio imaterial do Chimarrão: o chá da amizade".
Toma-se o chimarrão de várias maneiras. A mais comum é a 'roda de chimarrão' ou 'roda de mate', a cuia passando de mão em mão. Lá em casa, Santa Emília, Venâncio Aires, Rio Grande do Sul, família de pequenos agricultores, de manhã cedo é hora de planejar as atividades do dia, quem vai fazer o que. Antes do meio dia, relaxar à espera do almoço e repassar os problemas da manhã. No final de tarde, hora de descansar, conversar sobre o que deixou de ser feito, os problemas acontecidos durante o dia. Sempre a família reunida ao redor da mesa ou do fogão a lenha quando no inverno, às vezes comendo uma espiga de milho ou um pinhão. A família se encontra, a cuia vai rodando, o chimarrão serve de alimento para o corpo e o coração.
Atravessamos tempos em que pessoas e famílias pouco se encontram e menos ainda conversam. A correria do cotidiano, a televisão ligada, as angústiasdiárias não permitem o olho no olho, a calma da troca de idéias, a palavra que flui lenta, tranqüila. O chimarrão ou a roda de mate proporcionam a convivência.
Manter a tradição do chimarrão e da erva-mate serve não apenas para cultuar hábitos seculares.Tem o sentido do encontro, da vida em família, da pouca pressa em fazer as coisas, da boa prosa, do cuidado de repartir a mesma bomba e cuia, de saborear devagar o mate quente da hospitalidade, rodeado de amigos/as, companheiros/as. Ah, fosse assim sempre, com todas e todos, em todos os lugares!
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Edição de sábado, 29 de maio de 2010
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