Em tempos de supremacia do marketing político sobre qualquer outro compromisso, faz parte o governo tentar vender a ideia de que o desempenho da economia brasileira em 2009, medido pelo Produto Interno Bruto (PIB) não tem a menor importância, é coisa do passado e deve ser esquecido. Afinal, já estamos vivendo uma nova realidade, em ritmo de 5% ou 6% ao ano. Mas não é o que aconselha o bom senso. Nem é preciso. Vale dizer que a crise que interrompeu a trajetória de crescimento da economia brasileira no ano passado foi fenômeno externo e não há razão para o governo se esconder nos bons números de 2010. Será menos construtivo esquecer o que se passou do que tomar 2009 como lição. Isso porque há algo a corrigir e muito o que preservar. Para começar, ninguém deve se iludir. Não foi só uma marolinha. Embora 0,2% de recuo pareça pouco, para quem perdeu duas décadas de crescimento e vinha num ritmo acelerado de crescimento, é muito. Basta lembrar as taxas positivas a partir de 2004: 5,71% , 3,16%, 3,75%, 6,10% e 5,08%. Em 2009, foi a primeira vez que o PIB deixou de crescer em 17 anos. A agropecuária teve recuo de 5,2%, com perda de safra e queda nas cotações internacionais das commodities.
O desempenho da indústria foi ainda pior. Mesmo com a ajuda de políticas anticíclicas, como a redução de impostos sobre automóveis, eletrodoméstico da linha branca e material de construção, o setor amargou desempenho negativo de 5,5%, um dos mais baixos dos últimos tempos. Comércio e serviços conseguiram, graças ao crédito e aos estímulos tributários manter razoável nível de atividade, fechando com crescimento de 2,6% e refletindo a sustentação de elevado nível de compras e uso de serviços pelas famílias, com expansão de 8,9%, item responsável por 60% do PIB medido pelo lado do consumo. Os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ainda vão ser ajustados. Mas o desempenho do Brasil já pode ser considerado muito positivo, se comparado à maioria dos países e as primeiras lições de 2009.
Ter mantido a autoridade monetária blindada das pressões políticas, dos gênios heterodoxos e dos desenvolvimentistas afoitos foi um dos acertos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. que, assim que subiu a rampa, atirou no passado as bandeiras e bravatas que levantara contra atos de seu antecessor, como o pagamento das dívidas, o programa de recuperação do bancos, a prioridade do combate à inflação e a austeridade fiscal. Foi o BC que agiu rápido e certeiro na liberação de recursos dos próprios bancos que estavam presos no compulsório e, com isso, sustentou a oferta de crédito, pesadelo da maioria das economias em crise. O dever de casa implica levar o investimento do palanque para a realidade e trocar a farra da expansão do aparato público pela qualificação e produtividade dos recursos, inclusive humanos. Esquecer 2009 pode ser confortável, mas ajuda pouco.
Jair de Dona Lídia Por Paulo Abrantes de Oliveira - (Engenheiro Civil Paulo Abrantes de Oliveira)
O rio Piancó passa pela cidade de Pombal, também pela Outra Banda, conhecida como a Roça de Ana. Ali perto fica o Poço da Panela, nome dado por lembrar vários formatos de pedras imitando panelas. O rio segue seu caminho margeado por frondosas árvores de marizeiras, oiticicas, canafístulas, trapiás, mufumbos entre outras essências vegetais, que descem suas galhas para beijar a água limpa e doce. No Poço da Panela tinha um remanso enorme, em águas profundas que deixava o precioso líquido escuro e temeroso para quem não sabia nadar.
Lugar pitoresco que exercia uma atração medonha na meninada da rua Nova, rua da Cruz e da rua de Baixo. A pedra alta, onde saltavam os banhistas para dentro do Poço, ficava sob as sombras de dois pés de ingazeiras já seculares, frondosos, onde se abrigavam os urubus, todos os dias, quando o sol se despedia da terra, à hora bendita do Ângelus. A água, naquela parte do rio, não recebia o calor solar; era fria, acariciante, gostosa, atrativa. Os meninos se deliciavam aos domingos ou quando gazeteavam aulas, nadando, brincando de galinha-gorda, jogando sapatadas, mergulhando, pescando. Nós vadeávamos essa piscina da natureza, displicentes, alheios a tudo, em nossos devaneios, como se fossemos donos do mundo. Era a adolescência que nos fazia esquecer muita coisa: os estudos, as ordens emanadas de casa, os cuidados maternos e até o medo de perecermos afogados, como era costume sempre acontecer. Desse tempo retive na memória uma passagem que nunca me saiu da lembrança e a recordo quando ás vezes dou as minhas pinceladas no passado. Há poucos dias, em Pombal, estive conversando com o Professor Vieira, recordamos de nosso amigo Jair de Dona Lídia, que foi sempre, durante a nossa infância, um menino pacato, que falava pouco, que não era de briga, mas que estava pronto a defender qualquer colega que, por ventura, se achasse em apuros. E disso deu prova inúmeras vezes.
Certa ocasião estávamos todos tomando banho do outrolado do rio Piancó e nada nos prendia a atenção a não ser a água fria ou algumas baronesas que passavam, bem lentas, carregando a melancolia das suas flores roxas. Em dado momento, surge o Geraldo Aquiles, menino bem informado trazendo a infausta notícia: "Jair morreu no Poço da Panela - Bateu com a cabeça na pedra - Antes de morrer ele disse: "Esse vai ser meu último salto" - arrematou. Assombrados com a notícia, todos nós voltamos correndo para casa, pensativos, perplexos e atordoados com o acontecido. E, ali estava à margem do Rio Piancó, a adolescência perdida de Jair, o nosso companheiro retirado inerte das águas profundas por Chico de Ernesto. Jair se despedia dessa vida, deixando para trás o Poço da Panela, o lendário Piancó, a correnteza das águas que tanto se banhou, os colegas atônitos... A mãe Lídia, ao ver o filho único, retornando morto para casa, desmaia e em estado de choque, não consegue acompanhar o filho em sua última caminhada pelas ruas de Pombal. Indiferente, o rio seguiu serpenteando porsuas margens o verde escuro da sua vegetação nativa. Levou o sorriso e a alegria de uma juventude em flor. Uma morte prematura marcou para sempre, em nossos corações joviais, o nome do nosso querido Jair de Dona Lídia. Um dia fatídico, que por muitos anos vivemos, não esqueceremos, jamais.
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Edição de sábado, 13 de março de 2010
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