Pesquisa com portadores de dismorfia corporal constata alteração em região cerebral ligada às expressões faciais
Para algumas pessoas, encarar o próprio reflexo pode ser uma experiência assustadora. Entre 1% e 2% da população mundial sofre de um distúrbio chamado dismorfia corporal, caracterizado pela aversão à aparência. Mesmo que não tenha nada de errado com seus rostos e corpos, esses indivíduos enxergam-se de forma distorcida. É como se estivessem em uma sala de espelhos mágicos de um parque de diversões: embora normais, se veem como verdadeiras aberrações. Agora, pesquisa da Universidade da Califórnia, publicada na revista especializada norte-americana Archieves of general psychiatry, revela que a forma como o cérebro dos portadores do distúrbio processa as imagens segue um padrão anormal, principalmente quando eles se deparam com a própria aparência. Apesar de reconhecer que mais estudos precisarão ser levados adiante, o principal autor, o psiquiatra Jamie Feusner, disse que o problema pode ser não apenas comportamental, mas ter bases fisiológicas.
De acordo com ele, os dismórficos tendem a considerar excessivamente os pequenos detalhes, como rugas finas e quase imperceptíveis, em vez de enxergar o rosto - ou o corpo - como um conjunto. As consequências do distúrbio são graves. "Pessoas com BDD (sigla em inglês para body dysmorphic disorder) são tímidas, ansiosas e deprimidas. Elas têm obsessão por detalhes que ninguém sequer presta atenção. Algumas se recusam a sair de casa, outras sentem necessidade de cobrir o rosto ou o corpo e também há as que fazem múltiplas cirurgias plásticas. Cerca de metade dessas pessoas são hospitalizadas em alguma fase de suas vidas, e por volta de 1/4 tenta suicídio", relata Feusner.
O que essas pessoas têm em comum, além da aversão à própria fisionomia ou ao corpo, é uma alteração no córtex órbito-frontal esquerdo, área que faz parte do lobo frontal, uma região cerebral associada à coordenação das expressões faciais. Dependendo do tipo de imagem que veem, essa área pode ficar hiper ou hipoativada, segundo o estudo conduzido por Feusner. Para chegar a essa conclusão, a equipe de cientistas da Universidade da Califórnia submeteu 33 pessoas ao exame de ressonância magnética e analisou como o cérebro se comportava quando os voluntários viam diversos tipos de fotos.
Do grupo, 17 indivíduos eram diagnosticados com dismorfia corporal, embora não fizessem uso de medicamentos psicoterápicos. Enquanto o exame era realizado, todos os participantes tinham de olhar para dois tipos de imagens: deles próprios e de um ator famoso. Primeiro, as fotografias eram apresentadas sem alteração. Depois, eles deveriam observar a imagem manipulada por computador, sendo que o efeito aplicado destacava as informações de alta frequência espacial, que permitem detalhar o rosto, incluindo a presença de manchas e pelos aparentemente imperceptíveis. Na outra foto modificada, a fisionomia aparecia embaçada, ressaltando as informações de baixa frequência espacial.
Comparando-se ao grupo das pessoas mentalmente saudáveis, o cérebro dos dismórficos apresentou alterações no processo visual quando eles observavam a própria imagem normal e modificada com ampliação dos detalhes. Conforme esperavam os pesquisadores, a fotografia - mesmo manipulada - do ator famoso não implicou nenhuma reação fora do normal, sugerindo que os indivíduos que sofrem com o distúrbio têm dificuldades para perceber ou processar as informações apenas sobre seus rostos. Segundo Feusner, os padrões cerebrais observados na ressonância estão relacionados aos de pacientes que sofrem de transtorno obsessivo compulsivo.
De acordo com Feusner, não é confiável dizer, ainda, se a visão distorcida que o dismórfico faz da própria imagem é a causa ou a consequência das alterações cerebrais. "É possível que o processo visual anormal - talvez até mesmo herdado - possa predispor algumas pessoas a desenvolver a dismorfia corporal. Por outro lado, é possível que o problema surja por outros fatores, influencie o cérebro e cause o processo visual anormal. O tipo de estudo que fizemos não pode determinar isso, e precisamos prosseguir com pesquisas adicionais para entender melhor o problema", disse.
Arte:Pablo/ON/D.A Press
A psicóloga Ana Paula Pongelupe, diretora do Conselho Regional de Psicologia da 1ª Região, diz que pesquisas como a conduzida por Jamie Feusner são importantes para compreender melhor o problema e até auxiliar o desenvolvimento, no futuro, de um medicamento para pessoas que sofrem com dismorfia corporal. Porém, ela lembra que a neurofisiologia não explica, sozinha, os distúrbios do comportamento. "Temos que imaginar que somos um ser integral. Não dá para separar a parte emocional da fisiológica. Ninguém sabe dizer onde começa uma e termina a outra", diz. Especialista em transtornos alimentares, a psicóloga diz que a dismorfia corporal pode se manifestar de diferentes formas, como a anorexia, a bulimia e a vigorexia (treino físico excessivo em busca do corpo perfeito). Em todos os casos, há uma distorção da forma como a pessoa percebe sua aparência, e isso passa a ser uma obsessão. "Todos nós temos uma vaidade natural. Porém, quando passa para um extremo, gerando dor emocional e sofrimento, torna-se um distúrbio mental", diz Ana Paula Pongelupe.
Segundo ela, o problema costuma se manifestar na adolescência, quando ocorrem mudanças drásticas na aparência, e o indivíduo tem maior percepção do próprio corpo. Para os dismórficos, uma espinha vira "crateras lunares", como brinca a psicóloga. "E mesmo que ele tenha muitas espinhas mesmo, o importante é com que olhar essa pessoa se vê", diz. Ela usa o exemplo da apresentadora de televisão Angélica, que fez da mancha uma marca própria. "A pessoa pode elaborar essas imperfeições de maneira positiva. Porém, o olhar do dismórfico é desvirtuado; o que ele está vendo não é o que vemos", afirma.
+ Mais entrevista >> Jamie Feusner, psiquiatra
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Atualizado em 08|02|2010
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