Gestantes reclamam que diagnóstico de síndrome de Down sempre é repleto de informações erradas e pessimismo
Paloma Oliveto
Aos 45 anos, a professora Gilza Benvinda Rosa Silva jamais imaginou que iria engravidar. Porém, o exame constatou: ela estava esperando a pequena Sofia. Apesar de não planejada, a gestação foi muito bem recebida pela família. Na 16ª semana, ela descobriu que esperava uma menina com síndrome de Down. A notícia veio da pior forma possível. "O médico foi tão grosso comigo que só olhou para minha cara e perguntou se eu já tinha outro filho. Quando eu disse que sim, ele respondeu: 'que bom'. Nessa hora, fiquei muito nervosa", conta.
Experiência de Gilza (foto), mãe de Fernanda, não é um caso isolado. Ao contrário, é muito comum e precisa ser combatido Foto:Daniel Ferreira/CB/D.A Press
A experiência de Gilza não foi um incidente. Ex-presidente da Associação DFDown, que reúne amigos e familiares de pacientes, ela conta que dificilmente os pais recebem o diagnóstico de forma otimista. O mesmo foi constatado pelo psicólogo Marcos Augusto de Azevedo, que trabalha há mais de duas décadas com a síndrome. Como parte do doutorado defendido na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), ele realizou uma pesquisa com as mães e descobriu que todas haviam sido mal informadas e ouvido prognósticos negativos a respeito do futuro dos filhos.
O psicólogo estudou três grupos de grávidas, divididas entre as que receberam a notícia ainda durante a gestação, as que souberam logo após darem à luz e as que só tomaram conhecimento da síndrome depois de três meses do nascimento dos bebês. Nos 28 casos pesquisados, os diagnósticos vieram carregados de informações erradas sobre o desenvolvimento das crianças, e sempre de maneira pessimista.
Gilza chegou a ouvir insinuações de que deveria abortar. "Quando chegou o resultado definitivo, o geneticista me ligou e disse que a partir dali eu tinha que decidir o que ia fazer. Ele disse que se eu levasse a gravidez adiante, seria tudo muito mais difícil para mim e para todo mundo", recorda. Do obstetra, a professora também não ouviu nada animador. Ao contrário, ele chegou a ser preconceituoso. "O médico me falou: 'Sua filha vai ser mongoloide. Vai dar um trabalho danado, vai demorar demais para andar e falar'. Naquelemomento, ele abriu um buraco e eu me enfiei dentro", diz. "Ele também perguntou se eu tinha decidido ter mesmo, se tinha pensado bem. Eu já estava gostando do bebê e resolvi correr atrás de informação", conta.
Informação
De acordo com o psicólogo Marcos Augusto de Azevedo, as mães que, como Gilza, descobrem a síndrome de Down ainda na gestação, costumam se preparar melhor para o parto porque têm tempo para se informar sobre o defeito genético. "Geralmente, as que têm mais instrução não se prendem somente ao diagnóstico do médico. Noventa por cento das mães que foram entrevistadas e que foram atrás de informação tinham curso superior", diz.Porém, mesmo as mulheres com maiores recursos intelectuais podem se desvincular dos filhos diante do diagnóstico pessimista. "Toda mulher, mesmo antes de se casar e engravidar, idealiza o filho. De repente, chega um filho que frustra aquela expectativa. Ela entra em um processo que, na psicologia, chamamos de luto. Para aceitar o filho real, leva um pouco de tempo. Quando adeficiência é colocada de forma negativa pelo profissional de saúde, o peso é muito grande. A mulher acha que aquilo é a verdade absoluta e fica desmotivada, com medo de não saber cuidar, achando que nada do que fizer vai dar certo", diz o psicólogo.
+ Mais É preciso naturalidade, diz psicólogo
Copyright
- JornalONorte.com.br | todos os direitos reservados. É proibida
a reprodução parcial ou total do conteúdo
desta página sem a prévia autorização |
atendimento.pb@diariosassociados.com.br