Aparelho desenvolvido por pesquisadores permite identificar cores e cédulas de dinheiro para deficientes visuais
Silvia Pacheco
Pesquisadores da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP) desenvolveram um aparelho que identifica cores e cédulas de dinheiro para deficientes visuais. Batizado de Auire - saudação usada pela tribo indígena Javaés, de Tocantins -, o identificador é o primeiro equipamento do tipo desenvolvido com tecnologia brasileira e que une as funções de interpretação de cor e de notas de dinheiro (no caso, o real). Os existentes no mercado são importados e não têm as duas funções incorporadas, além de identificarem somente cédulas do dólar.
A deficiente visual Regina Fátima Oliveira testou e aprovou o equipamento: "Ele vai acabar com constrangimentos na hora de pagar por um serviço ou pegar o troco" Foto:Fundação Dorina Nowill/Divulgação
O Auire ainda é um protótipo, fruto do trabalho iniciado pela engenheira de computação Nathália Sautchuck Patrício em 2006, durante seu curso de graduação. O projeto foi retomado no fim do ano passado em parceria com o também engenheiro de computação Fernando de Oliveira Gil. Por enquanto, ele funciona acoplado a um computador e identifica até 250 cores e tons. "A ideia é que o aparelho seja portátil e do tamanho de uma lanterna pequena, para ser fácil de ser carregado e manuseado", explica a pesquisadora.
O aparelho possui três sensores que reconhecem as cores primárias: vermelho, verde e azul. Quando é ligado, dois LEDs (sigla em inglês para diodo emissor de luz) são acesos para iluminar o objeto. Pressionando-se um dos botões, as informações dos sensores são colhidas e enviadas ao microcontrolador, que compara os valores recebidos com uma tabela de cores. Uma vez identificada a cor, o som correspondente é tocado em um alto falante. "A retina humana possui três tipos de células sensíveis à cor, chamadas cones. Cada um deles é sensível a uma determinada faixa de comprimentos de onda do espectro luminoso, mais precisamente ao picos situados a 419nm (azul-violeta), 531nm (verde) e 559nm (verde-amarelo). A classificação dos cones em vermelho, verde e azul é uma simplificação usada por comodidade para tipificar as três frequências-alvo. Todos os tons existentes derivam da combinação dessas cores primárias", explica Gil.
Já a identificação de notas de dinheiro acontece por um processo semelhante. As cédulas no Brasil são de diferentes cores, o que permite o uso dessa propriedade para identificá-las. Após pressionar o botão, uma amostra de cor da nota é enviada ao microcontrolador, que verifica qual cor é a mais próxima dessa amostra e qual a nota a possui. Logo depois o valor é falado. "Temos apenas que ajustar o software de identificação das notas de R$ 2 e R$ 100. Elas ainda não são reconhecidas corretamente porque possuem cores parecidas", conta o engenheiro.
Uma vantagem do Auire deve ser o preço em relação aos aparelhos existentes no mercado. Há alguns identificadores vendidos no Brasil com preços variando de R$ 600 (somente para cores) a R$ 1.200 (somente para cédulas). Segundo Gil, o preço da invenção deve ficar entre R$ 100 e R$ 200. "Muitas vezes, a deficiência visual dificulta o ingresso em algumas áreas do mercado profissional. Como grande parte dessas pessoas são de baixa renda, elas precisam de uma solução de baixo custo", defende Gil. "Enxergar cores não é apenas uma questão estética. Essa capacidade é importante para uma boa qualidade de vida, porque torna os deficientes visuais mais independentes, elevando a sua autoestima", completa. Recentemente, o identificador foi selecionado como um dos 42 finalistas da competição internacional Unreasonable Finalists Marketplace, organizada pela ONG norte-americana Unreasonable Institute, que apoia projetos de cunho social.
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Atualizado em 03|02|2010
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