Como vai ser a tua participação neste domingo dentro do projeto Station Brésil - Onde os Ritmos se Encontram, que faz parte das comemorações do Ano da França no Brasil, que vai ocorrer em João Pessoa?
Não, ainda não pensamos em nada, vai ser mais o prazer de estarmos na mesma ocasião. Serão poucas músicas, mas vou misturar canções antigas com as da turnê Pelo sabor do gesto, título do novo CD.
No mais recente CD Pelo sabor do gesto, inclusive, você fez duas versões para as canções do francês Alex Beaupain.
Sim, duas versões estão presentes no álbum novo: "Boas razões" e "Pelo sabor do gesto", que fazem parte da trilha do filme Les chansons d'amour. Gostei. Achei extremamente contemporâneo com personagens que vão reagindo às situações sem juízo de valor. Achei bacana também porque os atores não cantam bem. São pessoas que cantam. Uma delas, "Boas razões", vou apresentar neste show em João Pessoa.
Sua última passagem pela capital paraibana foi com a turnê do Pré pós tudo bossa band. Qual a expectativa desse retorno a João Pessoa?
A melhor possível. A última vez cantei na praia, pra muita gente. Adoro João Pessoa, sempre sou feliz por aí. O que o público esperar de mim é muita vontade de fazer tudo valer a pena!
Neste novo trabalho há a participação do cantor e compositor paraibano Chico César, que assina com você "Esporte fino confortável". Você recentemente também assinou parceria para o disco Deixa, de Renata Arruda. Qual a sua relação com a música nordestina e paraibana?
Me identifico profundamente. Tudo que é nordestino puxo sardinha pro meu lado. Eu adoro a música nordestina. O disco de Chico (Francisco forró y frevo) é genial. Com Renata sempre tive pouco contato. Às vezes, a gente tocava violão na casa de amigos em comum. Um dia ela me ligou dizendo que tinha visto o show do Prince e tinha feito uma canção meio sexy inspirada no clima do show, aí resultou nessa nossa parceria "Fagulha rara". Quando fui fazer o disco pedi a Chico uma música. Ele mandou várias, fiz todas as músicas que ele mandou.Tem umas quatro letras.
O CD Pelo sabor do gesto acentua uma traço teu de valorizar o canto, mas também reafirma tua identidade no cenário da música brasileira. Ainda assim é um disco delicado. Como foi o percurso até chegar nesse conceito?
Eu vinha do Pré pós tudo bossa band, que tinha uma pegada mais rock. Depois de um projeto vitorioso como esse, que recebeu vários prêmios, senti a angústia em reafirmar todas as minhas influências. O Pré pós era um disco mais urgente, diferente, desde o choro de "Guerra Peixe" a "Braços cruzados" com Pedro Luís e a Parede. Depois passeio pelos Mutantes' e ninguém passa impunemente, e o projeto com Simone, de quem eu sempre fui fã. Era chegada a hora de fazer o meu. Não sou mental para fazer disco. Escolho com o meu coração. Nunca decido por um assunto. Vou escolhendo as músicas que vão me traduzindo.
Essa preocupação se reflete também na maturidade de assumir desde o início asinfluências musicais e do próprio canto. Quais os ecos mais fortes até hoje?
Sempre quis mesmo foi cantar. Me interessa muito mais uma cantora que me mostre uma canção do que uma voz. Nas minhas influências ainda ecoa Elis Regina. Uma cantora que voltei a ouvir recentemente foi a Gal Costa. Gosto de Joni Mitchell e com Ella Fitzgerald nunca fico muito normal. Valorizo quando o canto diz alguma coisa além da voz.
Você tem utilizado muito a internet para divulgar e se comunicar com fãs e outros artistas. Como tem visto essa possibilidade diante do mercado fragilizado com os downloads gratuitos?
Tem um grande desafio do CD não valer mais nada. Na Inglaterra, as pessoas entenderam diferente. O interessante é que no Brasil as pessoas vissem o valor do disco mesmo com a era do mp3. Nesse meio termo não é o que era, nem o que vai ser. A internet é importante, mas não atinge todo mundo. Para quem já tem carreira é bom, mas para iniciantes é muito diluído. A internet quanto mais democrática, mais difícil fica para identificar o que é bom. A maioria não é artista. Canta para uma plateia que não houveconcentrada com a possibilidade de estar no seu lugar. Época esquisita essa a da fama pela fama. Tem muita coisa legal, mas também muita porcaria. Também falta um pouco de discernimento das pessoas nesse país sem educação. Aparecer não é tão difícil quanto se manter porque o artista tem sempre que manter o frescor do seu trabalho.
O resultado foi um disco crítico à vida e o mais surpreendente é a delicadeza dele.
Eu não sabia que estava precisando de tanta leveza. Fez um bem enorme para minha vida fazer esse disco. John Ulhoa, um dos produtores, tem humor até para fazer arranjo. Na música Tudo sobre você ele fez um arranjo que não dá para ouvir sem um sorriso no rosto, como se tivesse pulando na estrada. Depois dessa primeira parte do disco produzida em Belo Horizonte, fui para São Paulo onde o Beto Villares produziu a segunda parte. Beto tem um componente brasileiro muito forte. Claro que quando juntei não pensei que iria ficar meio romântico.
Gesto. Talvez seja a palavra que perpassa todo o conceito do disco. O que tem motivado tua comunicação com o público através da música?
Desejo chamar a atenção das pessoas para a delicadeza. Completei 45 anos recentemente e cada vez mais valorizo o que é simples e não é bobo. Estou respeitando mais o tempo das coisas. Mas também me impondo diante da vida e das pessoas. Eu não sou passiva com a vida. Decidi dá murro em ponta de faca. Acho que isso é amadurecer. Chega uma hora que é preciso escutar a vida. Não vou lutar contra a maledicência. Não vou expor minha vida. Não vou estar sempre na TV, mas um dia quem for ao show verá uma artista inteira. As letras todas são minhas. Nem todas vivi, mas é a minha observação do mundo. Sempre digo que adoro mudar de opinião, se me convencem.
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Edição de domingo, 1 de novembro de 2009
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