Primeiro Caderno | Política Edição de domingo, 4 de outubro de 2009
NonatoGuedes
Refrega no "ninho"
Não dá para dizer que a entrevista do ex-governador Cássio Cunha Lima, esta semana, pacificou o "ninho" tucano na Paraíba. Mesmo com a sua decisão de permanecer no PSDB e com os elogios feitos ao senador Cícero Lucena e às suas credenciais para concorrer ao governo, há uma atmosfera de desconfiança no ar. A previsão, nos bastidores, é a de que o partido conviverá com uma queda de braço por votos de convencionais que no próximo ano vão sacramentar candidaturas e coligações. Alguns cassistas já espalham que o ex-governador tem influência no controle interno.
Tem-se a impressão de que Cássio havia se preparado, durante o exílio voluntário nos Estados Unidos, para pavimentar o terreno da composição com a candidatura do prefeito de João Pessoa, Ricardo Coutinho (PSB), a pretexto de derrotar Maranhão. Com seu retorno, ainda pipocaram versões na própria imprensa nacional de que Cunha Lima estava a um passo de se filiar ao Partido Socialista. Desse ponto de vista, Cícero estaria cumprindo um papel decorativo como pré-candidato. O enredo foi outro, o que gerou o consenso de que, a rigor, Cássio não apresentou novidades na sua entrevista.
A saída que lhe restou foi a de bater forte no governo Maranhão, numa estratégia calculada para se credenciar como líder maior da oposição no bloco a que continua integrado. Mas alguma razão forte, que se mantém obscura, pesou para bloquear um gesto espetacular, e não terá sido a insinuação quanto à pecha de traidor que já estava na boca de ciceristas fiéis. A verdade é que Cássio não parece mais à vontade no "ninho".
A aposta do PSB
Os aliados do prefeito Ricardo Coutinho evitaram acusar o golpe com a "ducha de água fria" contida nas entrelinhas do pronunciamento de Cássio. Apostam, ainda, numa reviravolta que eles mesmos não sabem como possa vir a se materializar. Supostamente, jogam fichas num esvaziamento da legenda tucana e na pressão de políticos que vão se candidatar à reeleição e necessitam de oxigênio para enfrentar uma renhida competição.
Uma eventual "cristianização" de Cícero poderia sensibilizar a cúpula nacional do PSDB a tomar as rédeas do processo e protagonizar uma intervenção branca, mudando, como Cássio deu a entender, a direção dos acontecimentos. A liberação, por Cássio, de aliados, para se filiarem ao PSB, é sintomática de orquestração maquiavélica, não obstante a sutileza de que se reveste o jogo de xadrez, em que os dados estão rolando.
Vitória de Pirro
Numa análise superficial, Cícero pode imaginar que tenha saído vitorioso na queda de braço, preservando o comando do PSDB estadual e o direito de manter o projeto de candidato. Há analistas que advertem, contudo, para o risco de Cícero estar comemorando uma vitória de Pirro, uma vez que a guilhotina ainda ronda sua cabeça.
Não se pode ignorar que mesmo caprichando em referências positivas ao antigo companheiro de batalhas, Cássio voltou a defender a ampliação do arco de oposição, no qual se inclui, por gravidade, o prefeito Ricardo Coutinho. O que se diz, nas rodas bem informadas, é que não foi encenação toda a parafernália montada, nos esconsos, em diálogos de ricardistas com cassistas, cujo teor nem de longe soou ao ouvido de Lucena.
DEM: expectativa
Há que se levar em conta, por extensão, a expectativa alimentada no seio do "Democratas", presidido por Efraim Morais, que sonha com uma candidatura à reeleição ao Senado em parceria com Cássio, tendo como puxador de votos o alcaide pessoense. Os contatos que Ricardo ensaiou, em meio à agenda administrativa que tem cumprido de forma espartana, envolveram figuras expressivas e de menor teor no DEM.
Por enquanto, os atores interessados vão manter as aparências e estabelecer um mínimo de convivência civilizada. Mas alguns se entreolham de forma enviesada, como se estivessem emitindo códigos cifrados a respeito de mutações que possam deslanchar. Aguardam um empurrão da conjuntura, sempre pródiga em fatos novos, para tomarem o rumo que, no íntimo, acalentam, mas que por estratégia não assumem.
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