Colunas Edição de segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Opinião
EUA de Obama ameaçam a paz na América Latina
Com a debilidade das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a hora era de retirada gradativa das tropas e interrupção da cooperação militar entre Washington e Bogotá. A guerrilha perdeu os principais líderes - inclusive o fundador e comandante Manuel Marulanda (o Tirofijo) e o número dois, Raúl Reyes -, teve o sistema de comunicação seriamente avariado e principais reféns resgatados. Além disso, o belicista presidente George W. Bush foi removido da Casa Branca. Mas é Barack Obama, eleito sob o manto da distensão, quem acende novo estopim na América Latina, com projeto de não apenas manter mas também ampliar os efetivos e a ajuda financeira, sob o risco de desencadear corrida armamentista no subcontinente.
Pretextos, aliás, jamais faltariam para a política intervencionista do Pentágono. São, portanto, irrelevantes. O fato é que o Plano Colômbia recebeu mais de US$ 5 bilhões na última década e passaria a contar com outros US$ 5 bilhões até 2019. Além disso, das três bases, Apiay, Malambo e Palanquero, essa última já tem recursos aprovados pela Câmara dos EUA para ser fortalecida e atuar regionalmente. É difícil acreditar que o comando geral fique com o governo colombiano. Tampouco se pode garantir que as ações se limitarão às fronteiras daquele país ou que será respeitado o limite de até 800 militares e 600 civis norte-americanos, conforme acertado 10 anos atrás. Na falta de transparência, cresce a tensão e aumentam as preocupações, seja na vizinhança, seja na União Europeia (UE).
As primeiras e mais severas escaramuças, naturalmente, são com a Venezuela. Hugo Chávez e Álvaro Uribe mal ensaiavam a reaproximação quando a apreensão com os narcoguerrilheiros de três lança-foguetes de fabricação sueca supostamente adquiridos por Caracas em 1988 voltou a elevar a temperatura da crise. À cobrança colombiana de explicações, a resposta foi uma reação indignada, com o congelamento de relações diplomáticas, comerciais e econômicas. Alimenta-se, assim, por tabela, o radicalismo, autoritarismo e antiamericanismodos chavistas, que se servem da conturbação para juntar forças num ambiente de deterioração do quadro interno, com desabastecimento e inflação em alta. Ou seja, mais lenha na fogueira latino-americana.
Na prõxima segunda-feira, dia 10, o presidente do Equador, Rafael Correa, alinhado incondicional de Chávez, assumirá, em Quito, a presidência da União de Nações Sul-Americanas (Unasul). Brasil e Chile já avisaram que o acordo Washington-Bogotá estará em pauta na ocasião. Ao mesmo tempo, a Espanha articula a reação da UE. Também devem ser convocadas as Nações Unidas e a Organização dos Estados Americanos (OEA). Salvo rusgas de menores consequências, a América Latina tem sido exemplo de paz para o mundo. Espera-se que não estejam de volta, com as bênçãos de Obama, os fantasmas do autoritarismo e da instabilidade que até há pouco emperravam o crescimento e o desenvolvimento da região.
Contos de Nova York Ana Dubeux anadubeux.df@diariosassociados.com.br
"Há sonhos que devem ser ressonhados, projetos que não podem ser esquecidos..." Invoco Hilda Hilst porque há uma verdade incontestável em suas palavras. Dia a dia abandonamos nossos sonhos à própria sorte. E nada é mais triste do que dar a eles a dimensão de uma coisinha sem importância, que pode ser confundida com afazeres rotineiros, simples ou complexos. Eu levei 17 anos para entender a máxima de um grande amigo meu, que sempre me alertou: "O que nos separa dos nossos sonhos é a coragem". Mesmo que essa coragem seja empregada para superar o pânico de embarcar num avião para viver algumas horas de terror a bordo de uma engenhoca que, de vez em quando, despenca e dilacera a vida de um bando de gente. Mas vencemos - eu, meu sonho e minha coragem - e todos juntos desembarcamos em Nova York quase duas décadas depois da primeira estada. Dessa vez, na companhia de meus filhos e, portanto, de novo olhar.
Fui embalada pela necessidade de ficar mais próxima dos próprios sonhos. Entre eles, está a ambição de viajar, conhecer, reconhecer lugares, situações, cheiros, rostos, gente. As ruas cheias, Chinatown fervilhando, Soho, Village, arte, museu, Central Park, uma língua que não é a minha e a descoberta de que o ser humano se comunica de qualquer jeito. Sobretudo em Nova York. Ali, tragédias e comédias caminham juntas, como os risos e choros presentes em Contos de Nova York, que uniu Martin Scorsese, Woody Allen e Francis Ford Copolla num clássico inesquecível e delicioso. Aquela cidade nos faz mesmo ter a sensação de que, para cada notícia ruim, existe uma bela imagem, uma cena indescritível.
O caminhar apressado da Big Apple acalma corações que buscam afagar os próprios sonhos e as vontades de pessoas como eu e você. Pois já me sinto caminhando para as próximas viagens, cores, imagens. Estou mais perto, portanto, de outros sonhos, pessoas, cheiros e sensações. Esse experimentalismo, empírico mesmo, das coisas do mundo, que só as viagens proporcionam, guarda em si outras vantagens. A maior delas é ter a certeza de que o perigo da gripe, máscaras, remédios, 200 mil infectados, corrupção e apadrinhamento no Senado, a pequenez dos políticos, enfim todas as mazelas são apenas uma das faces de um mundo que nos pertence e nos convida o tempo todo. Não que tenhamos que esquecer tudo isso - porque a alienação emburrece e não nos torna mais felizes, apenas mais imbecis. Só não podemos reduzir nossa existência a isso.
Ainda sob o impacto de uns dias em Nova York, recorro à diplomata, ativista dos direitos humanos e primeira-dama americana Eleanor Roosevelt, mulher de Franklin Roosevelt. Atribui-se a ela a frase "o futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos". Comece esta segunda dando um crédito a seus sonhos. É o que desejo.
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