Brasileiros e franceses, ou seja, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Nicolas Sarcozy, subscreveram, para publicação na imprensa mundial, um artigo a quatro mãos sob o título "Aliança Para a Mudança", no qual pregam verdades sobre as políticas que devem ser postas em prática pela governança do mundo através dos dirigentes das potências e, agora, também, dos maiores países emergentes. O artigo é ambicioso e representa uma novidade agradável no plano diplomático. Dois dos mais influentes políticos do orbe se juntam e, como que através de um cordial apelo ao bom senso, enumeram e enunciam o que existe de frágil e errado na governança do planeta. Não é mais possível que a ordem mundial, escrevem, fundada sobre a solidariedade e a justiça, fique a depender de princípios e colocações desatualizados. Disseram:
"O Brasil e a França desejam oferecer ao mundo sua visão compartida de um novo multilateralismo adaptado ao mundo multipolar. Não podemos tratar dosproblemas do século 21 com as instituiçõesinternacionais que são, na verdade, um legado do século 20". Exemplificam com o caso do Fundo Monetário Internacionais (FMI) e do Banco Mundial: ambos os estabelecimentos mundiais e financeiros precisam dar maior peso às economias emergentes mais dinâmicas nos respectivos processos de tomada de decisões.
As estruturas para o trato de assuntos quanto a paz e a segurança deverão passar por modificações que averbam de significativas. Claramente, declararam que se deve levar a bom termo um processo abrangente da reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas., "de modo a salvaguardar uma ordem internacional mais equilibrada e nada excludente". Ora, enfatizaram, "os mecanismos atuais para a governança global são inadequados para lidar com o caráter sistêmico e a interrelação dos diversos desafios". Vieram à menção o terrorismo, o tráfico de drogas, a lavagem do dinheiro, a especulação em escala internacional, o corporativismo, o protecionismo sob várias provas e motivações .
A crise da economia e finanças mundiais foi outro tópico ventilado com o rigor da sinceridade pelos dois estadistas. Também não deixaram ficar no esquecimento o grave problema que é a atual crise climática que, não mais dividindo os cientistas, segue separando os responsáveis pelas decisões de caráter político no mundo - os dirigentes.
Os presidentes da França e do Brasil lamentaram que até a data não tenham os homens tratado de conferir a necessária dimensão social ao processo irreversível da globalização. Constatam que, no mundo inteiro, "trabalhadores que enfrentam a tempestade econômica clamam por mais justiça e mais segurança. Essas vozes necessitam ser ouvidas".
O artigo dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Nicolas Sarkozy é uma bem concatenada e bem escrita carta de intenção feita para leitura dos mais altos mandatários da governança mundial, como pelo mais simples dos paisanos, cuja existência está a depender cada vez mais, dos que legislam, mandam fazer ou simplesmente negam os chefes de estados que atuam como mandatários do globo terrestre para fazer o que se impõe e, não, o que não se faz necessário nem urgente.
Bento XVI e as questões sociais Dom Aldo Pagotto Arcebispo da Paraíba
O Papa Bento XVI publicou recentemente (dia 7 pp.) uma encíclica sobre o desenvolvimento humano e questões sociais de grande atualidade, tais como o mercado e as lições da crise, a precariedade no trabalho, pobres, luta contra a fome, desigualdades, injustiças. Temas recorrentes. Aqui vão alguns extratos. O homem é o primeiro capital. "Recordo a todos, sobretudo aos governantes empenhados a dar um perfil renovado aos sistemas econômicos e sociais do mundo, que o primeiro capital a preservar e valorizar é o homem, a pessoa, na sua integridade" (n. 25).
A lição da crise. "A crise nos obriga a projetar de novo o nosso caminho, impor-nos regras novas, encontrar novas formas de empenho, apostar em experiências positivas e rejeitar as negativas. Assim, a crise torna-se ocasião de discernimento e elaboração de nova planificação" (n. 21). Sobre a precariedade no trabalho: "A incerteza sobre as condições de trabalho resulta dos processos de mobilidade e desregulamentação e se torna endêmica. Geram-se formas de instabilidade psicológica, com a dificuldade de construir percursos coerentes na própria vida. Nisso se inclui o percurso rumo ao matrimônio. Consequência: aparecimento de situações de degradação humana, além de desperdício de força social" (n. 25).
Luta contra a fome: "Na era da globalização eliminar a fome no mundo tornou-se também um objetivo a alcançar para preservar a paz e a subsistência da terra. A fome não depende tanto de uma escassez material, mas, sobretudo, da escassez de recursos sociais - de natureza institucional - o que é mais importante" (n. 27).
O mercado: "Sem formas internas de solidariedade e de confiança recíproca o mercado não pode cumprir plenamente a própria função econômica. Hoje foi precisamente esta confiança que veio a faltar e a perda da confiança é uma perda grave" (n. 35). "A dignidade da pessoa e as exigências da justiça requerem, sobretudo hoje, que as opções econômicas não façam aumentar, de forma excessiva e moralmente inaceitável, as diferenças de riqueza e que se continue a perseguir como prioritário o objetivo do acesso ao trabalho para todos" (n. 32).
O papel do Estado e a economia. "A economia integrada de nossos dias não elimina a função dos Estados, antes obriga os governos a uma colaboração recíproca mais intensa. Razão de sabedoria e de prudência sugere que não se proclame depressa demais o fim do Estado" (n. 41). "A economia tem necessidade da ética para o seu correto funcionamento. Não de uma ética qualquer, mas, de uma ética amiga da pessoa" (n. 45).
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Edição de domingo, 19 de julho de 2009
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