O bate-boca pega fogo no Senado. É Vossa Excelência pra lá, Vossa Excelência pra lá, Vossa Excelência pracolá. Mas o excelso pronome não esconde maldades, xingamentos e deselegâncias. Colegas, vizinhos, empresários, parentes, todos levam. Nem cozinheiros escapam. Outro dia, especialista de forno e fogão entrou na pancadaria. Demóstenes Torres definiu a CPI da Petrobras de "pizza temperada com pré-sal". Lula não gostou. Devolveu na bucha:
- Enquanto a oposição grita, eu trabalho. Eles é que são bons pizzaiolos.
Atingidos no brio, senadores protestaram. Pediram a palavra e ocuparam a tribuna. "Pizzaiolo é ele", respondeu Álvaro Dias com argumento de menino. "Eu não sou nem descendente de italiano", brincou Garibaldi Alves Filho. Cristovam Buarque soltou o verbo:
- O presidente disse que esta Casa não vale nada. Usa expressão italiana. Eu me sinto profundamente ofendido. Não posso permitir que o presidente chame os senadores com esse adjetivo.
Ops! O plenário calou-se. Cessou tudo que a musa antiga cantava. A razão: o professor trocou as bolas. Ou melhor, trocou as classes. Classificou pizzaiolo de adjetivo. Bobeou. O cozinheiro que faz a delícia de massa e queijo é substantivo.
Tamanho família
O pizzaiolo lulista rendeu. Em comentário no Jornal das Dez, Cristiana Lobo disse que Lula "fez licença poética". Será? Licença poética é concessão pra lá de especial pra criaturas pra lá de especiais. A língua não pode funcionar como camisa de força e inibir a expressão do artista. Ele tem, por isso, a liberdade de pisar grafias, concordâncias, regências, pontuações, etc., etc., etc. "Cacilda Becker morreram", escreveu Drummond amparado no direito que a criação lhe assegura.
"Os senadores são bons pizzaiolos", disse Lula. O presidente recorreu a figura de linguagem. Qual? A imagem. Pra chegar a ela, o raciocínio passa por etapas:
1ª - comparação: Os senadores são como bons pizzaiolos. A criança é tal qual anjo. (Aparecem, aí, os elos comparativos como e tal qual).
2ª - imagem: Os senadores são bons pizzaiolos. A criança é anjo. (No caso, desaparecem os elos comparativos).
3ª - metáfora: Os pizzaiolos (= senadores) entraram em recesso. Anjos (= crianças) precisam de cuidados. (Viu? O elo e oprimeiro elemento da comparação sumiram. O segundo passou a significar o primeiro.)
Moral da história: pizza engorda, confunde e engamberla.
Pimenta nos olhos da outra...
Hillary Clinton apareceu com o braço enfaixado. Está com inflamação no cotovelo. As más línguas tiraram proveito da dor alheia. Em alusão às puladas de cerca do maridão, dizem que a secretária de Estado americana está com dor de cotovelo. Repórteres se apressaram a noticiar a fofoca. Na hora de escrever, ops! Com hífen ou sem hífen? Dor de cotovelo joga no time de pé de moleque, anjo da guarda, mula sem cabeça, tomara que caia, dia a dia. São palavras compostas por vocábulos ligados por preposições, conjunções, pronomes (de, sem, que, a). Com a reforma ortográfica, essa moçada ficou livre e solta - sem tracinho.
Atenção, muita atenção. Não generalize. Se o composto nomear criaturas do reino animal ou vegetal, permanece ligadão. Assim: joão-de-barro, bicho-do-pé, pimenta-do-reino, castanha-do-pará.
Leitor pergunta
Dad, não se usa mais o futuro? Hoje mesmo, li:" Bruno Chateaubriand vem sexta-feira a BH". Eu diria "virá sexta-feira". Muitos dizem: "Vou a Sampa amanhã". Acho melhor: "Irei a Sampa amanhã". Oriente-me, por favor. Lincoln Grecco, Belô
O presente é guloso que só. Além de indicar o tempo presente, indica o futuro e o passado. Por isso dizemos de peito aberto e cabeça erguida: No mês que vem vou a São Paulo. Mao Tsé Tung morre. O povo chora. O corpo fica exposto na Praça da Paz Celestial para visitação pública.
E o Cruzeiro, hein? Que pena! Os brasileiros torciam pela Raposa. O azul e branco levantaria pela terceira vez a Taça Libertadores da América. Não levantou. Deixou a glória para o Estudiantes. A equipe argentina levou o troféu pela quarta vez. O resultado deixa uma dúvida. O Cruzeiro seria tri-campeão ou tricampeão? Nuno Barros, Natal
Guarde isto, Nuno: prefixos que indicam vezes obedecem às duas regras de ouro do emprego do hífen. Usam o tracinho quando o prefixo for seguido de h ou letra igual à letra final do prefixo. No mais, é tudo colado: bi-histórico, bi-indicado, tri-hipótese, tri-indicação, bicampeão, tricampeão. E por aí vai.
Clique na imagem para
vê-la maior
Edição de domingo, 19 de julho de 2009
Edições
anteriores
Selecione a data do
O NORTE que você
deseja visualizar
Copyright
- JornalONorte.com.br | todos os direitos reservados. É proibida
a reprodução parcial ou total do conteúdo
desta página sem a prévia autorização |
atendimento.pb@diariosassociados.com.br