O cheirinho que a comida da vovó deixava pela casa, o gostinho do tempero elaborado, as receitas demoradas que só ela sabia fazer vão continuar apenas na lembrança das gerações posteriores, se depender da disponibilidade das atuais vovós. Elas se comprometeram com tantas atividades que não querem mais perder tempo na cozinha.
Célia Maria se reveza entre as especialidades culinárias que fazem a alegria das amigas e atividades do cotidiano como navegar na Internet Foto: Fotos:Fabyana Mota/ON/D.A. Press.
A psicóloga e professora Nilsonete Gonçalves, coordenadora do Programa de Atenção Idosa da Prefeitura de João Pessoa, confirma a tendência das pessoas que hoje estão com mais de 60 anos de buscarem interatividade com o mundo atual. "Eu observo que hoje eles querem soluções mais rápidas e práticas para tudo. Querem aprender coisas novas, interagir. As mulheres não são mais as donas de casa que se dedicavam exclusivamente aos serviços domésticos", explicou Nilsonete.
A atividade serve como prevenção para qualquer doença física ou mental. "O idoso está mais ativo por consciência própria desta necessidade", ressaltou a psicóloga. Francisca Barros, de 65 anos, estava numa aula de informática básica para terceira idade quando o assunto foi levantado. "Eu até gosto de cozinhar, num dia especial, quando a família está reunida. Mas tem que ser um prato único e que seja simples para a gente não perder muito tempo na cozinha". Seu prato predileto é galinha picante desfiada e com um molho especial preparado com alimentos pré-prontos como a ervilha em conserva, creme de leite, azeitonas, cogumelos e o ketchup picante, que dá o nome ao prato.
Imediatamente suas colegas anotaram a receita. Célia Maria Lima Alves, disse que vai cozinhando e inventando. Ela prepara uma polenta na pressão como ninguém, dizem as amigas! Maria das Dores, 72 anos, faz um salpicão que é ansiosamente aguardado nas festas. "Este é o meu prato especial", confessou.
Severina Feitosa de Oliveira, 73 anos, mora sozinha. Usa muito os congelados no dia a dia. Mas não deixa de agradar seus netos quando eles vão visitá-la. "Faço tudo o que eles gostam, mas sempre é uma coisinha fácil!" Ela prefere se envolver com artesanato. Sua colega, Maria Margarida dos Santos faz tantas atividades que dificilmente é encontrada em casa. Ela toma conta de uma de suas netinhas, Matitê, 6 anos, enquanto ela está de férias na escola. Isso não a impede de ir às aulas de alongamento, reciclagem, artesanato, e outras tantas que frequenta. "Maitê vai junto e participa", contou.
Na maioria dos casos, o importante é organizar o tempo e as prioridades. Como se vê, os papéis não se inverteram: vovós são vovós. Netinhos são netinhos. Entretanto, mesmo que os hábitos tenham mudado, acompanhando os novos tempos, o amor que reúne as gerações persiste, e o prato principal acaba sempre sendo dela: da vovó.
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Edição de domingo, 19 de julho de 2009
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