Estudo da USP diz que 20% das grávidas têm depressão e ansiedade. Incidência é maior entre mulheres pobres
Geralmente associada à felicidade, a gravidez é um período de sofrimento para uma em cada cinco gestantes brasileiras. Estudo da Universidade de São Paulo (USP) publicado no jornal científico internacional Archives of Women`s Mental Health mostra que 20% das mulheres entre o quinto e o sétimo mês de gestação apresentam sintomas de depressão e ansiedade. Foram analisadas 831 pacientes atendidas pelas unidades básicas de saúde de São Paulo.
Evidências indicam que as mulheres que sofrem com a tristeza exacerbada no pós-parto já possuíam a doença quando estavam no período da gestação Foto: Juliana Leitao/DP.
"Dados da literatura médica apontam uma prevalência, em todo o mundo, de cerca de 15% a 20% das gestantes. No Brasil, porém, existem poucos trabalhos. A preocupação maior tem sido com o pós-parto", diz o ginecologista Alexandre Faisal, um dos autores da pesquisa. "Mas as evidências são de que essas mulheres que têm depressão pós-parto já estavam com o problema durante a gestação", acrescenta. O problema é que, de um modo geral, segundo o médico, os especialistas que as acompanham têm dificuldade de fazer o diagnóstico. "Ou elas não ficam à vontade para dizer que estão deprimidas ou os médicos não têm formação para diagnosticá-las."
Na rede pública, conforme avaliou a pesquisa, a complicação é maior, já que os médicos geralmente trabalham sobrecarregados e não têm tempo de avaliar as condições psicológicas das pacientes. O estudo da USP concentrou-se na população de baixa renda. Segundo Faisal, os riscos de uma gestante apresentar sintomas do problema são maiores quando a mulher enfrenta dificuldades socioeconômicas, como desemprego, moradia inadequada e uma quantidade grande de pessoas dividindo a mesma casa. "Quem tem histórico de doenças psiquiátricas anteriores também corre mais risco", diz o ginecologista. Outra constatação da pesquisa é que, na primeira gravidez, os riscos dobram quando a gestante tem entre 13 e 16 anos.
Quando estava grávida de sua filha de 3 anos, a empregada doméstica Luciana*, 28, ficou deprimida. Ela nunca havia desenvolvido o problema e precisou da ajuda da patroa para identificá-lo. "Lá pelo quarto mês, comecei a me sentir muito triste, chorava pelos cantos sem motivo, não conseguia dormir direito", conta. "Achei que era normal, porque todo mundo fala que mulher grávida fica mais sensível." Porém, as alterações de humor chamaram a atenção da patroa de Luciana. "Ela conversou comigo e foi muito bom, porque ninguém da minha família se importava", relata.
Para piorar a situação, o companheiro da jovem bebia em excesso e ameaçava abandoná-la. "Ele também dizia que o bebê não era dele, só para me machucar", lembra. A doméstica, que achava que depressão era "coisa de rico", foi estimulada pela patroa a procurar ajuda. Um psiquiatra conhecido da dona da casa aceitou medicá-la e a conduziu para psicoterapia. "Quando ganhei a Márcia, meu ex já tinha ido embora, mas não sofri. E o parto foi bastante tranquilo. Sou abençoada por ter tido ajuda. Muitas mulheres pobres sofrem sozinhas porque não sabem para onde correr", conta Luciana.
De fato, a maioria das mulheres de baixa renda não tem a mesma sorte. Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) do Ministério da Saúde cobrem somente 55% do país, sendo que em 10 estados o atendimento é considerado crítico. Sem tratamento, não só a gestante sofre. O bebê também é vítima. "A literatura médica mostra que maior é o risco de o parto ser prematuro e a criança apresentar baixo peso ao nascer, dois fatores associados à mortalidade infantil", destaca Faisal. De acordo com ele, também há impactos emocionais para a criança, que pode desenvolver distúrbios como o déficit de atenção.
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