Quem chega à Penitenciária Modelo Paraíba I, em Jacarapé, na capital, tem a impressão que está diante de um posto de saúde durante a madrugada para obtenção de uma ficha para atendimento médico pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na verdade, o que está ocorrendo no presídio inaugurado há pouco mais um ano é uma verdadeira via crucis para mulheres que necessitam fazer um cadastro com o único objetivo de visitar os companheiros ou familiares recolhidos na unidade prisional. Grávidas, idosas ou com crianças recém nascidas, as mulheres chegam a dormir 48 horas sob marquises em frente ao presídio. A intenção é garantir uma ficha para, a partir das 9h, e ter direito à visita nas quartas-feiras e domingos no presídio.
Muitas das companheiras dos apenados chegam a passar a noite na porta da unidade prisional para conseguir visitá-los Foto: Ovidio Carvalho/ON/D.A. Press
Com os corpos cobertos com lençóis que levam para se proteger do frio, as mulheres se dizem muito humilhadas com a situação e temem que os maridos sofram represália pelo fato delas cobrarem por parte da direção do presídio um melhor tratamento aeles. Maria Iracema da Silva, 66 anos, saiu de Campina Grande em um dia de quarta-feira pela manhã e, no dia seguinte à noite, ainda estava com outras mulheres em frente o presídio para tentar se cadastrar. O sacríficio se justifica pelo desejo de poder falar com o marido depois de três meses após a transferência para João Pessoa sem que ela soubesse o motivo e para qual presídio.
Segundo Ana Lúcia Lima, que tem o marido preso em Jacarapé por prática de assalto, apenas uma agente é escalada diariamente para atender 15 mulheres. Por conta dessa limitação, durante à noite muitas mulheres são forçadas a dormir em frente ao presídio para pegar uma das fichas disponibilizadas pela direção do presídio. Como há dias em que dezenas de mulheres dormem em frente à penitenciária, ficar na fila por 48 horas não é garantia de conseguir a tão almejada entrada já que a disputa começa ainda fora do presídio.
Uma portaria do Ministério da Justiça estabelece uma série de regras para as visitas aos presos, como a autorização para que apenas uma pessoa - cônjuge, companheiro ou companheira - seja registrada para ir ao presídio fazer a visita íntima. É proibida a substituição, exceto em caso de separação ou divórcio. O preso pode escolher outra pessoa, mas somente seis meses depois do cancelamento da indicação anterior.
Pelas regras, o preso poderá receber visita de jovens menores dos 18 anos, desde que os dois sejam legalmente casados. Do contrário, vai depender de autorização do juiz de Execução Penal. O encontro sexual poderá ser suspenso se o preso cometer alguma falta disciplinar grave e se o visitante causar problema de "ordem moral". Há ainda uma terceira hipótese de suspensão do direito: se o preso solicitar o cancelamento da visita.
Aos domingos, quando os familiares podem visitar os apenados por até cinco horas, centenas de mulheres chegam à unidade prisional com crianças de todas as idades. Elas chegam, de carros, motos ou a pé, levando roupas e comida.
A esposa de um apenado chegou ao presídio de Jacarapé diasdepois de ter dado a luz a gêmeos. Ela dormiu em frente o presídio e os bebês ficaram sob os cuidados da mãe.Em plena marquise em frente ao presídio, a mãe dos bebês chora e emociona outras mulheres.Ela recebeu um telefonema da avó dos bebês e soube que seus filhos estavam chorando por não ter sido amamentados. Através do vivo voz do celular a jovem mãe ouviu o choro de um dos filhos e não conteve as lágrimas, contagiando a todos que presenciaram a cena.
+ Mais Rotina marcada por constrangimentos
Clique na imagem para
vê-la maior
Edição de domingo, 12 de julho de 2009
Edições
anteriores
Selecione a data do
O NORTE que você
deseja visualizar
Copyright
- JornalONorte.com.br | todos os direitos reservados. É proibida
a reprodução parcial ou total do conteúdo
desta página sem a prévia autorização |
atendimento.pb@diariosassociados.com.br