Distúrbio mental de diagnóstico tardio é confundido com outras doenças e problemas comportamentais.
Mariana Fonseca
A esquizofrenia atinge 1,8 milhão de brasileiros e cerca de 1% da população mundial. É uma doença mental crônica, de difícil diagnóstico, e que precisa ser tratada o mais cedo possível. Quanto mais tardio, mais árduo é o controle do transtorno. Os primeiros sintomas aparecem, normalmente, na adolescência, e são confundidos com vários problemas. A média é de dois anos até o diagnóstico correto. Segundo o especialista, um dos maiores desafios é acabar com o preconceito, que atrasa a busca por um psiquiatra, atrapalha o tratamento e ainda dificulta a vida em sociedade de muitos pacientes. Um dos temas na novela da TV Globo Caminho das Índias - em que o ator Bruno Gagliasso interpreta Tarso, portador da doença -, a esquizofrenia emergiu para o debate entre leigos e estudiosos.
Da vida para a telinha: o ator Bruno Gagliasso interpreta um rapaz esquizofrênico. O drama expôe a dificuldade em entender o problema e os artifícios para tratá-lo Foto: João Miguel Junior/TV Globo
Mitos precisam ser esclarecidos, como o estigma de que a doença pode ser decorrente da educação dos pais. "Não é assim. A esquizofrenia não é causada por traumas psicológicos. Ela é decorrente de uma predisposição genética. Quanto mais próxima a relação entre parentes, maior a chance de se ter a doença. Além disso, existem muitos fatores não emocionais, relativos ao meio ambiente, que podem desencadear a doença. São várias as hipóteses. Sabemos, por exemplo, que o uso de maconha pode aumentar consideravelmente as chances de surto", explica o psiquiatra Hélio Elkis, coordenador do Projeto Esquizofrenia e médico do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
Entre os sintomas da doença estão: poucos contatos afetivos, falar pouco, não sentir prazer, delírios, alucinações, mudanças de humor, depressão, ansiedade, desorganização mental, problemas cognitivos de atenção, memória, abstração e daí por diante. Muitas vezes, os sinais são confundidos com os de outras doenças, como distúrbio bipolar. "O risco de suicídio entre os pacientes é de 6%. Os surtos colocam os pacientes em risco", explica Hélio. O psiquiatra afirma que, cada vez que o paciente tem uma recaída, a doença agrava. Quanto maissurtos, maior o comprometimento das funções psíquicas do paciente. "Não tomar a medicação ou simplesmente parar aumenta muito as chances de recaídas, re-hospitalizações e agravamento dos sintomas."
Adolescência
De acordo com o psiquiatra Rodrigo Bressan, professor de pós-graduação do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a doença mental pode ser muitas vezes confundida com rebeldia, crise da adolescência ou depressão. Por isso, desde o diagnóstico, que demora pelo menos seis meses para ser definitivo, a família é peça fundamental. "Muitas vezes, os pais não entendem a apatia do filho e ficam pedindo que ele saia de casa, 'vá para o clube com seus amigos etc.', quando, na verdade, ele apresenta sintomas da doença, está ali ouvindo vozes, se encolhendo, não tem mesmo condições de sair e precisa ser encaminhado ao médico."
O tratamento é feito com o uso de antipsicóticos que vão atuar nos receptores neuronais de duas substâncias produzidas no cérebro - a dopamina e a serotonina -, aliviando sintomas como delírios, alucinações e desorganização do pensamento. "São indicadas também abordagens psicossociais, como grupos de acolhimento, terapias para pacientes e familiares. Até mesmo para o combate ao autoestigma, que seria a sensação de eles mesmos se considerarem loucos. E para ajudar os parentes, que muitas vezes preferem negar a doença", explica Rodrigo.
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Atualizado em 29|06|2009
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