Primeiro Caderno | Dia-a-dia Edição de sábado, 4 de julho de 2009
Realidades diferentes de ser mulher
Pesquisa realizada na capital mostra o perfil das moradoras de dois bairros e os desafios que elas enfrentam no cotidiano
Lucilene Meireles // lucilenemeireles.pb@diariosassociados.com.br
João Pessoa é uma cidade de mulheres que vivem realidades bem distintas. Uma infinidade delas parou de estudar, não trabalha, tem filhos pequenos e sofre violência doméstica. Mulheres submissas, que não conseguem sair da situação de serem apenas donas de casa, mães, esposas. Outras, no entanto, passam por cima das dificuldades, enfrentam os maridos que, além de as espancarem, proíbem que estudem ou trabalhem, e lutam para garantir o sustento, muitas vezes da família inteira. Mulheres de fibra. Mulheres corajosas.
Retorno à sala de aula para estudar é considerado por Ednalva uma das grandes vitórias de sua vida, já que não conseguiu permanecer no mercado de trabalho por muito tempo Foto: Fabyana Mota/ON/D.A. Press
Mas, o que explicaria formas tão diferentes de viver e de agir para assegurar a sobrevivência? O que teria levado essas mulheres, antes mesmo de casar e ter filhos, a abandonar os estudos? A socióloga Loreley Garcia disse que não é fácil fazer um diagnóstico da situação sem cair em generalizações e estereótipos. O que se pode afirmar, segundo ela, é que nossas atitudes resultam da soma de nossas condições objetivas: o mundo ao qual pertencemos, nosso meio cultural, classe e, não menos importante, das condições subjetivas, ou seja a formação da personalidade que, a despeito de partilhar a mesmas condições, implica em uma atitude única, típica de cada indivíduo. "Assim, não se pode falar em comportamento de uma classe, etnia, nacionalidade ou religião sem cair no preconceito, porque aqui o indivíduo joga seu papel", analisou.
Em comum, as mulheres partilham a subalternidade e um bombardeio ideológico que as faz se verem como passivas, quase inertes frente a realidade que se apresenta. Assoladas pela ideia de que o sofrimento redime ou purifica, muitas vezes suportam condições degradantes devido à sua condição de gênero, isto é, pelo simples fato de serem mulheres diante do machismo.
Ainda segundo a socióloga, expostas a violência, desigualdade salarial, política e cultural, reproduzem o comportamento tradicional. "E, pior, criam os filhos dentro da dicotomia dos sexos: meninos mandões e meninas servis", observou. Outras se recusam a reproduzir o papel tradicional da Amélia, da sofredora, esperando um príncipe encantado ou um milagre salvá-las do marido agressivo, do patrão abusivo e outras situações que enfrentam no cotidiano.
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