De acordo com Mana, dois terços da população iraniana têm menos de 30 anos. Entre essa amostra, 60% dos estudantes são de mulheres. "Em meu país, nós, mulheres, não temos liberdade e vivemos sob leis islâmicas de 1,4 mil anos. Se divorciarmos, não podemos criar nossos filhos. No geral, uma iraniana é contada como um ser humano pela metade", desabafou. Ela conta que até mesmo as vítimas de estupro precisam de uma testemunha para fazerem valer sua voz perante as autoridades. Por isso, a ânsia por mudança. "Protestar no Irã é contra a lei", acrescentou.
Mana não vê comparações com a Revolução do Chador - em 1936, o uso do xador (veste feminina que cobre todo o corpo, com exceção dos olhos) foi banido pelo xá Mohammad Reza Pahlevi, mas as mulheres mais tradicionais desafiaram a proibição. "Todos estamos unidos contra o governo, religiosos e pró-chador, não religiosos e contrários ao chador. O governo e o sistema dos aiatolás estremeceu e perdeu crédito entre os próprios simpatizantes. A sociedade iraniana nuncamais será a mesma", comemora Mana. O sacrifício de Neda Soltan teve grande parcela de contribuição nesse fenômeno. "Neda representa a luta coletiva de toda a sociedade", disse Sanam.
Herdeira
Faezeh Rasfsanjani, filha do ex-presidente iraniano Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, exemplifica o papel que as mulheres estão desempenhando na rebelião contra o resultado oficial das eleições presidenciais do último dia 12. Quatro dias depois da votação, ela participou de uma marcha em Teerã e discursou para os manifestantes. Faezeh e um irmão foram detidos dias mais tarde, acusados de incitar à desobediência contra a liderança religiosa. A família Rafsanjani, das mais ricas e poderosas entre os novos "clãs" surgidos no regime islâmico, teve papel destacado na campanha do candidato reformista Mir Hossein Moussavi. Hashemi Rafsanjani é desafeto público de Mahmud Ahmadinejad, que lhe impôs uma derrota humilhante no segundo turno das eleições de 2005. Na reta final da campanha deste ano, durante um debate que travou com Moussavi na TV, o atual mandatário questionou o rival sobre o apoio que teria recebido de "políticos corruptos", o que levou Rafsanjani a pedir (em vão) que o líder religioso censurasse Ahmadinejad.
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Edição de domingo, 28 de junho de 2009
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