Primeiro Caderno | Dia-a-dia Edição de domingo, 28 de junho de 2009
Dicas de português
Plural pra lá de traiçoeiro
Um dos melhores programas da tevê? É o GloboNews Painel. Três especialistas debatem o assunto do momento. O entrevistador, William Waack, conduz a discussão com habilidade, conhecimento e firmeza. Mas, no final, tropeça. Invariavelmente diz:
- Agradecemos as participações de fulano, fulano e fulano.
Eis a armadilha na qual muitos caaaaaaaaaaaaaaaaaaaaem. Ela dá as caras quando uma propriedade se refere a mais de um termo da oração. Na frase de William Waack, o número não varia. Por quê? Há a participação de cada uma das três pessoas.
Confuso? Outros exemplos ajudam a entender o sofisticado conceito. Um deles é do mestre de cerimônias. Corpo ereto e voz empostada, ele anuncia "as presenças" de personalidades presentes ao evento. Nada feito. Cada pessoa tem uma presença. O jornal informa: "O Real Madrid confirmou as contratações de Kaká e Cristiano Ronaldo". Xô, plural. Houve a contratação dos dois jogadores. Em bom português: contratou-se cada um dos atletas.
A coisa não para aí. Quer ver? A universidade divulgou o nome dos aprovados (não: os nomes). A polícia investiga a identidade dos assaltantes (não: identidades). Chamou a atenção a ausência do presidente e do vice (não: ausências). Dunga confirmou a escalação de Robinho, Ramires e Kaká (não: escalações). Cerca de 40 mil pessoas vão perder o emprego com a proibição de importar pneus usados (não: empregos).
Azar no amor
O governador da Carolina do Sul sumiu. Sem avisar a família e a equipe, bateu asas e voou. Pousou na Argentina. Lá, namorou, comeu carne de primeira, dançou tango. Uma semana depois, voltou. Em rede nacional, confessou viver um caso fora do casamento. Foi aí que pintou a dúvida. Como escrever extraconjugal? Com hífen? Junto? Separado? Feita a pesquisa, veio a resposta. Extra joga no time da maior parte dos prefixos. Pede hífen quando seguido de h ou a (letras iguais se rejeitam). No mais, é tudo colado: extra-histórico, extra-alcance, extraconjugal, extraordinário, extraestrutural.
Crime desvendado
Ufa! Finalmente a família de Patrícia Franco teve uma resposta. Há um ano, o carro da engenheira foi encontrado submerso na água. Vazio. O corpo da moça não foi localizado. Mas investigações confirmaram as suspeitas - o envolvimento de quatro PMs. "As balas são compatíveis com o calibre do revólver de um dos policiais que estavam na barreira". A frase deu nó nos miolos dos leitores. Não seria "estava na barreira"?
A expressão um dos que é flexível como arbusto. Topa o singular e o plural. "Não sou um dos que traem", poderia ter dito o governador da Carolina do Norte. "Não sou um dos que trai" seria a outra forma. Ambas estão gramaticalmente certas. Mas o sentido muda um pouco. Ao usar o singular, o autor diz que a ação se refere a um só indivíduo. O plural, ao contrário, a todos.
Vai outro exemplo. Lula é um dos presidentes que sorri muito. No caso, dá-se realce a um. Daí o singular. Lula é um dos presidentes que sorriem muito. Tradução: Lula é um dos tantos presidentes hienas. Por isso o emprego do plural.
Cuidado! Muito cuidado! A generalização é burra. Às vezes, o verbo se refere a um só indivíduo. No caso, precisa ficar no singular. Quer ver? O Tietê é um dos rios da capital paulista que deságua no Paraná. (Ora, só o rio Tietê deságua no Paraná. Aí, não há saída. O singular é obrigatório.) Macbeth é uma das peças de Shakespeare em cartaz no CCBB. (Está claro? Só uma das tantas peças de Shakespeare está em exibição no CCBB.)
É isso. Afora casos singulares como o do rio Tietê e da peça Macbeth, um dos que é expressão-gilete. Corta dos dois lados. Ao usar o plural, a frase deu ênfase aos "policiais". Se fosse singular, o destaque cairia no "um".
Leitor pergunta
Em mini-história, o prefixo não tem acento. Em míni, sozinho, tem. Por quê? Carlos Bontempo, Porto Alegre
Em mini-história, o dissílabo é prefixo. Dispensa o grampinho. Em míni, é substantivo. Como táxi, múlti e máxi, é paroxítono terminado em i. Vem, grampinho!
Recado
"Livro não é apenas presente. É passado e futuro." Anúncio de livraria
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